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segunda-feira, 20 de abril de 2015

LENDAS O GAROU
AS TRADIÇÕES SAGRADAS PARTE 2



- Pensei que os lobisomens fossem humanos que se transformavam
em lobos, e não o contrário.
- Os Garou podem nascer tanto entre lobos quanto entre
humanos. A linhagem de um Garou é conhecida como
sua Raça. Sim, os lobos precisam aprender a andar sobre
duas pernas como nós aprendemos a correr sobre quatro.
Além disso, existe outra raça, conhecida como intermediá-
ria, nascida de uma união proibida entre Garou. A esses
chamamos impuros. Nós os desprezamos por sua origem
torpe, mas, apesar disso, alguns impuros conquistaram grandes
glórias.
- E o que era o Impergium?
- Antes dos tempos da Suméria e do Egito, os membros
do Povo nomearam-se regentes e pastores da Humanidade.
Acreditavam que poderiam impedir que Wyrm devorasse a
Terra se proibissem a população humana de exceder um
determinado número. Foram aos vilarejos dos homens identificar
seus velhos e debilitados; escolhendo humanos para
abater, impediram a disseminação de sua semente pelas florestas
e terras sagradas.
- Os Filhos de Gaia foram Garou que resistiram aos anci
ões e lutaram para acabar com o Impergium. Às custas de
muito trabalho duro e sacrifício, conseguiram. Ouça agora
o último glifo das tribos...
Nossa tribo do sul, os Bunyip -
onde está ela?
Espalhamos uivos ao vento,
enviamos espíritos pelas ventanias
e nossos irmãos não responderam.

Os Bunyip estão perdidos para nós; desapareceram sem
deixar vestígios. Foram vítimas das artimanhas da Wyrm e
de nossa própria estupidez. Os Croatan, que seguiram os
Puros, morreram defendendo Gaia da Wyrm. Não resta ningu
ém dessa tribo.
Há outros entre os 13, como os Garras Vermelhas, lobos
que vivem isolados da Humanidade e a odeiam. Conhecemos
também os Silenciosos, que são peregrinos furtivos.
Costumam agir como nossos mensageiros e são capazes de
fazer profecias com uma precisão surpreendente.
O Registro menciona os Uivadores Brancos: a tribo que
nos desonrou, que fugiu de nós para o covil da Wyrm, para
dançar na Espiral Negra. Eles agora chamam a si mesmos de
Dançarinos da Espiral Negra, e servem à Wyrm de coração,
corpo e alma. Eu pertenço aos Wendigo. Você, meu filho,
aos Fianna.
- Se você diz, acredito — Brian comentou. — Só não
compreendo o significado de tudo isto.
- Você encontrará muitos tipos de augúrios, raças e tribos
na matilha à qual irá juntar-se.
- Matilha? Os Garou andam em matilhas? Como os lobos?
- Isso mesmo. A matilha é muito importante para nós.
Veja este glifo...

E, eu, Brancas-Patas-Reluzentes,
caí por terra, chorando,
pois minha matilha estava morta,
e sem ela não sou nada.
Nada faço com minhas patas,
ou olhos, ou braços, ou pernas,
ou pêlo, ou pele.
Sou incompleto, sou nada.
Minha matilha morreu.
Tudo que desejo é juntar-me a ela.
- Nossa! Esse aí exagerou no drama, hein? — Brian comentou,
franzindo o nariz.
- Você nunca conheceu uma família de verdade, Brian.
A sua se dividiu, cheia de ódio, raiva, desconfiança e desarmonia.
Uma matilha é um fruto de Gaia, com vida e espírito
próprios. O espírito de uma matilha é chamado totem, e
existem muitos totens. O de minha matilha é Quimera, o
Narrador de Sonhos. O da sua pode ser Falcão, Coruja,
Coiote ou Fenris. Quem sabe? Existem tantos totens quanto
cabelos na sua cabeça.
- O seu vento... ele é um totem?
Por um segundo, o homem fitou Brian silenciosamente,
seus olhos buscando por um lampejo de lembrança, algum
sinal de que o ensinamento que havia passado ao garoto em
sonhos enfim estava emergindo.
- Não exatamente. Entenda, Brian, existem espíritos em
toda parte à nossa volta. Nesta casa, no solo, nas árvores,
nos rios. Até mesmo nas cidades. Existem inclusive alguns
Garou que falam aos espíritos dos computadores. Nos tempos
antigos muitos espíritos tinham medo de nós. Este glifo
fala disso...

Por onde andávamos
a floresta estava silenciosa,
os espíritos mantinham-se parados.
Estávamos sós, mas
Luna, nossa guia e protetora,
ensinou-nos como falar com os espíritos
nas línguas deles.
E falamos com eles,
falamos com seus Pais e Mães,
com seus Avôs e Avós,
seus líderes e sábios.
Convocou-se uma grande Assembléia de Espíritos.
Houve muitas orações para Gaia
e Pássaro da Noite, o não-lua,
convidou Águia para a reunião,
e os outros totens compareceram
para ouvir e falar na Assembléia.
Fizemos um tratado,
um acordo de paz,
entre os espíritos de Gaia.
Nunca mais iríamos caçá-los
sem penitência.
Em troca, prometeram-nos
que se os honrássemos em cerimônias
e dança,
atenderiam ao nosso chamado,
afiariam as nossas garras
e colocariam seu poder ao nosso dispor.

O espírito que você viu aqui, o espírito do vento chamado
Sussra, é um aliado espiritual meu. Eu o convoco quando
preciso de sua ajuda. Já trabalhamos juntos no passado, e
eu lhe dei de beber do manancial de Gaia que trago dentro
de mim. Ele é mais um amigo que um servo.
- Pensei que você tinha dito que são os Theurges quem
convocam espíritos. Como você conseguiu?
Morte-no-Fim abriu um sorriso. O filhote estava pensando!
- Conheço o Dom apropriado. Nem todos nos enquadramos
perfeitamente em nossos augúrios. Aprendi alguns
Dons aqui e ali, com as pessoas em meu Caern.
- Caern? Uma pilha de pedras?
- “Caern” são locais consagrados a Gaia. Nós os chamamos
assim porque alguns de nossos primeiros locais sagrados
foram monumentos mortuários. Mas os Caern significam
muito mais para nós. Este é o glifo que fala de um
Caern antigo...

Enquanto os que nos procuravam uivavam por nós,
galgávamos grandes distâncias,
passando por pedra, rocha e neve,
buscando um lar.
Subimos cada vez mais alto,
nossos olhos atentos para coisas sobrenaturais,
como hálitos ígneos
e silhuetas de asas de Wyrmling cruzando a lua.
Mas nossa busca chegou ao fim
na mais longa das noites.
Quando a lua crescente despontou,
sobre o pico mais alto,
à luz de Luna,
em terreno virgem,
nós clamamos alto por Gaia.
Uivamos por Ela.
Tínhamos encontrado nosso Trono prateado!
Nosso vale prateado
abrigava rios serpeantes e caudalosos.
Eram mais altas as montanhas prateadas,
e mais fortes os pinheiros seculares,
do nosso lar!
Dançamos e uivamos,
clamamos por Gaia na noite.
E quando a escuridão caiu sobre nós,
não temíamos mais o vôo do dragão.
Estrela, Pedra, Vento, Rio,
todos os quatro, as Luas Crescentes,
sacrificaram suas vidas naquela noite decisiva,
para conceder-nos seu Trono mais elevado.
Que uivem aqueles que recordam!
Solo sagrado,
longe da guerra contra a Wyrm,
Passagem para todos os caern de Gaia!

Isso descreve um dos caern mais antigos, a Seita da Lua
Crescente, na Rússia.
- Seita?
- Uma seita é um grupo de Garou que habita os arredores
de um determinado caern — Morte-no-Fim fez um gesto largo.
— Este lugar é o Caern do Vento Escondido, e nós somos
membros de seu clã. Veja bem, Brian, a seita governa os recursos
de um caern. Em tempos imemoriais, os dons de Gaia
foram desperdiçados em futilidades. A Wyrm nos enganou,
conduzindo-nos a uma batalha irracional. Perdemos muitas
guerras, e muitos caern foram profanados. E assim Gaia deixou
as pessoas reunirem-se em torno dos caern e governar a si
mesmos. Nós Garou possuímos muitas alianças.

- Estava pensando nisso. Com tantas coisas como matilha,
raça, augúrio, tribo e seita... como você sabe a quem
prestar lealdade? Adivinhando?
Morte-no-Fim sorriu. Esta era uma pergunta que o garoto
tinha feito antes, durante suas aulas oníricas. Um bom sinal.
- Não é preciso adivinhar. Na verdade é muito simples.
Há muito tempo atrás, o Philodox do Povo registrou as palavras
de sabedoria de nossos líderes num cântico. Chamamos
este cântico de Litania. Aqui, vê este glifo? Ele fala da
Litania...

Nos tempos antigos,
quando a escuridão governava a Terra,
o Povo dividiu-se.
Irados, guerrearam entre si,
e atacaram seus respectivos locais sagrados
Não houve paz.
Garou combateu Garou
e a Wyrm dividiu-nos um a um
e nos abateu.
Porém, a Sabedoria do Povo
era grande,
e os anciões do Povo
eram fortes.
Eles levaram seus filhos e os
filhos de seus filhos
a um novo entendimento.
Uma Grande Assembléia geral dos Garou
foi convocada
a Table Rock.
Vieram de todas as partes do mundo
e durante uma noite
foram apenas uma tribo,
e ali os Galliards cantaram a primeira Litania.
Do nascer ao pôr-do-sol
eles repetiram as palavras
até que todos presentes pudessem lembrar.
Apenas três feras, além de Lobo, foram autorizadas a ouvir.
Foram elas
Lagarto, que lembrou de cada palavra,
Corvo, que compreendeu cada palavra,
e Coiote, que possuía seu próprio parecer.
Dizem que nos últimos dias
Lagarto, Corvo e Coiote retornarão
para lembrar, ensinar e quebrar a Litania,
pois os Garou precisam ser tão duradouros e mutantes
quanto a Lua.

- Como os Garou vieram de todas as partes do mundo?
Correndo?
- Não, Brian, embora naquela época o Povo pudesse realmente
correr de um lado do mundo para o outro, pois as
terras eram mágicas e mais próximas. Mas não foi isso. Existe
um método de transporte entre os caern; este método é
chamado de Ponte da Lua. Já foram chamadas de Trilhas
da Lua, mas nós, membros modernos do Povo, as chamamos
Pontes, porque elas se projetam para o mundo espiritual
e retornam ao nosso. Elas são o meio que usamos para
viajar entre os caern.
- Pelo que entendi nem todos os Garou gostam uns dos
outros. É verdade?
- A mais pura, Brian. Muitas tribos travam lutas desnecess
árias, e os Ahroun estão sempre atacando alguém irracionalmente.
Isto ocorre devido ao dom da Fúria que trazemos
dentro de nós. Alguns dizem que foi a Wyrm que nos
concedeu a Fúria, para nos tornar nossos próprios arquiinimigos.
Certamente os Dançarinos da Espiral Negra são a
prova de que isto é, pelo menos em parte, verdade. Nós
perdemos o controle quando a Fúria se apodera de nossos
seres. Tornamo-nos máquinas assassinas, criaturas gigantescas
que usam suas garras como se fossem lâminas, movendo-
se mais rápido do que a visão pode acompanhar.
O velho agachou-se e abriu o forno. O calor da chama
atravessou a sala.
- É como o fogo, Brian. Você precisa fazer com que a sua
Fúria seja útil, e não destrutiva. É preciso aprender a contê-
la, não liberá-la de uma só vez. Se não aprender isto, a Fúria
irá consumi-lo.
O velho jogou outro cepo no fogo, e as chamas aumentaram,
rugindo como vivas.
- Foi isso que aconteceu... lá em casa... comigo?
Subitamente, Brian teve visões, lampejos de memória.
Seus pais, contorcidos e caídos no chão. A coisa negra, retalhos
de pele pendendo de seus braços deformados, rindo
para ele, sussurrando para ele. Lembrou da chama que ardia
em seu estômago e de como havia se movido, rápido como
o vento. De quem era o sangue em suas mãos?
- Foi o frenesi que salvou a sua vida — Morte-no-Fim
esclareceu, meneando a cabeça. — O Povo honrará você
por causa disso.
- Por quê? O que eu fiz? — Brian estava tremendo, o
choque abalando as fundações de sua alma. Seus pais estavam
mortos! E ele não tinha podido fazer nada para salvá-
los!
Morte-no-Fim segurou a mão do garoto entre as suas.
Brian sentiu uma onda de calma atravessá-lo. A mão enrugada
do velho segurou os dedos jovens de Brian, e eles caminharam
juntos até a parede.
- Toque-os, Brian. Eles estão dentro de você. Toque-os
e conheça a verdade.

Arrependimento, dor
morte, corrupção.
A Wyrm avulta-se sobre nós,
não há nada que possamos fazer.
Armas disparam morte,
não há nada que possamos fazer.
Armadilhas prendem nossas patas,
não há nada que possamos fazer.
Arranque a dor.
Encontre os jovens,
observe sua passagem.
Encontre os jovens,
registre seus atos.
Os últimos dias serão deles.
Eles nos trarão
grande Glória.
Encontre os jovens,
ouça-os.
Encontre os jovens
escute suas palavras ecoarem.
Encontre os jovens
ouça-os falar.
Eles nos ofertarão palavras de sabedoria.
- Sim, palavras de sabedoria. Ouve a sabedoria dentro
de você, Brian?
- Parece... que estou acordando... aos poucos... como se
estivesse saindo de um sonho longo.
- Continue, Brian. Leia o glifo.

Encontre os jovens
antes que se percam.
Mostre-lhes os caminhos certos,
mostre-lhes a verdade.
Faça-os enfrentar a Wyrm.
Faça-os enfrentar a si mesmos.
Encontre os jovens.
Forge seus espíritos.
Faça-os crescer também em Honra,
Sabedoria, Glória.
Honra: grande reputação
por atos ainda maiores.
Na escuridão
nós os observaremos.
Quando o último Garou
estiver morto,
nenhum de nós dirá isso.
Gaia morrerá de solidão.
Nenhum de nós dirá isso.
Não haverá luta.
Daremos dentes
e garras aos inimigos que reinam
nas noites de Gaia
nos últimos dias.
Veja os últimos sinais,
veja o nascer
da Noite.

- Mas eu não fiz nada! Eles já estavam mortos. Meu pais
já estavam mortos! Por que isso me dá Glória?
- Você matou um Dançarino da Espiral Negra, Brian.
As suas presas são afiadas, e a tradição de seus ancestrais
flui no seu sangue. A Glória chega a você.
- Por que eles não gritaram? Por que não correram? —
Lágrimas começaram a descer as faces de Brian. Ele se voltou
para o velho, apoiando-se nele. Enquanto chorava,
Brian sentiu uma muralha ruir em sua mente.
- O Delírio. Veja aqui...
Brian tocou o glifo, e as palavras fluíram, soltas, para a
sua mente.

Pecados originais,
pecados do orgulho,
trouxemos o medo da noite,
fizemos as mães esconderem seus filhos,
E as crianças esconderem seus velhos.
Eles observaram e esperaram,
sozinhos, em suas cavernas.
Os guerreiros lutariam,
e iriam morrer,
e nada deteria
o Impergium.
Trouxemos o medo-noite;
eles ficaram assustados.
Nasceram crianças e os filhos destas,
muitos invernos se passaram e nós
estivemos lá durante cada um deles.
Trouxemos o medo-noite —
como cervos empalhados,
não podiam gritar,
não podiam se mover,
não podiam recordar
nossa passagem.
O Delírio
tomou-os também.

Agora ele se levanta,
sempre o medo-noite.
Os bípedes fogem aterrorizados
de nossa forma guerreira,
Crinos metade-lobo.
O Delírio
cai sobre eles.
Pecados do passado,
pecados do orgulho,
a artimanha da Wyrm.
Trouxemos o medo-noite,
vivemos entre eles,
mas sabemos que nós,
sempre isolados,
não podemos amá-los.
Não podemos ficar com eles,
sempre, sempre,
vem o medo-noite.

Brian estremeceu, não conseguindo mais conter as lá-
grimas. A porta da cabana se abriu, deixando entrar uma
rajada de vento. Era apenas Kate. O velho dirigiu-se à jovem
num tom de voz baixo, numa língua que Brian jamais
tinha ouvido.
- Eles estão chegando, Deathbear-rhya! Arrombaram a
divisa!
- Abrirei a Ponte da Lua para que você passe por ela,
Caçadora Implacável. Irei logo em seguida. Preciso incendiar
a cabana para que eles não se apoderem das informações
que ela contém.
- Não perderíamos muito conhecimento, ancião? Não
podemos deixar que tudo isto seja reduzido a cinzas!
- O conhecimento está no jovem Brian. Ele agora sabe
que os Registros estão guardados no seu coração.
- Como sempre estiveram — Brian disse, olhando para
o velho. Em seguida começou a murmurar as palavras Garou
como se tivesse entrado em transe.
Fora da cabana, o vento uivou. Ouviu-se o canto de um
noitibó e, ao longe, uma risada satânica.
Morte-no-Fim caminhou até o centro da pequena cabana
e fechou os olhos. Murmurando suavemente, convocou
a Fênix, que era o totem do caern. O totem começou a abrir
a Ponte da Lua.
Maravilhado, Brian assistiu um globo opalino florescer do
chão. Observou-o crescer em tamanho até ficar maior que
Kate, enchendo a sala. Uma ventania forte soprou através
dele, uma rajada de ar morno e úmido. Kate pareceu zangada,
quase arrogante, antes de curvar a cabeça e caminhar para a
Ponte da Lua. Em seguida o globo encolheu e sumiu.
- Há mais uma coisa que você precisa aprender, Brian.
Como Guardião dos Registros, é seu dever acrescentar outra
marca a ele, registrando o que acontecer neste dia.
Morte-no-Fim fitou os olhos de Brian. O rapaz sentiu
um estranha necessidade de obedecer ao homem, como se
ele fosse um sacerdote.
- Você falará do dia que Morte-no-Fim morreu. Falará
de como ele ficou para trás para realizar sua última missão
para Gaia. Você escreverá este glifo nos Registros.
- Mas... eu pensei que você só fosse morrer no fim dos
tempos! — Brian gritou.
Morte-no-Fim segurou os braços de Brian.
- Estamos no fim dos tempos, Brian! Lembra do Glifo do
Apocalipse?
Estes são os últimos dias.
Dias nos quais a Wyrm irá levantar-se
e seus tentáculos recobrirão o mundo
e Garou lutará contra Garou.
Dias nos quais os humanos irão caçar-nos
em estranhas criaturas da Weaver.
Dias nos quais a morte irá seguir-nos
como um urso faminto.
Conheceremos os últimos tempos,
quando o Povo não será suficiente
para cuidar apropriadamente dos caern,
e os filhotes perdidos morrerão
ou serão tomados pela Wyrm.
E muitas visões
irão realizar-se.
Guarde bem esses sinais.
Registre os últimos dias.
Eles estão chegando.
Estão chegando.

- Chamamos a isso O Apocalipse. Vivemos nossos últimos
dias. Quem sabe quando será a investida final da Wyrm?
Até lá, não podemos fazer nada senão esperar e continuar
lutando contra ela.
O vento sibilou do lado de fora; nuvens de neve obscureceram
as janelas. A cabana inteira rangeu ante a fúria da
tempestade.
- Os ventos estão mantendo os Espirais Negras afastados,
mas eles nos seguiram até aqui. Não há Garou suficientes para
defender este lugar. Devemos nos certificar de que a cabana
não cairá nas mãos deles. É por isso que ficarei aqui. Registre
o que acontecer! O Povo precisa do seu Glifo!
- Não posso deixar você aqui para morrer! Você é necess
ário. Precisamos da sua sabedoria.
- Agora você possui toda minha sabedoria, garoto. E ainda
mais, pois o sangue dos sábios corre em suas veias. Saberá o
que fazer quando o tempo chegar. Você será o último Guardi
ão dos Registros. Agora vá!

A Ponte da Lua abriu novamente por trás de Brian, mas
ele mal a notou. Ficou parado observando Morte-no-Fim
abrir latas e latas de querosene, derramando o líquido no
assoalho seco de madeira.
O velho esticou os braços para o teto. Seu corpo se dobrou,
deformou-se e cresceu, assumindo sua forma guerreira,
o Crinos. Isso teria apavorado Brian, se agora não lhe
parecesse tão familiar.
- Vá! E diga aos anciões que eu lhe dei um nome. As
pessoas o chamarão Morte-pela-Wyrm, pois os Registros só
cairão em seus tentáculos depois que ela tiver derrotado
todos os outros Garou.
Brian hesitou, suas mãos tocando as bordas macias da
Ponte da Lua.
- Vá, eu já disse! Eles chegarão a qualquer momento...
Ouviu-se um estrondo: a porta tinha sido reduzida a farpas.
Duas criaturas negras, com garras gotejantes e presas
amareladas, entraram na sala. Riam, riam como coisas enlouquecidas.
Estavam sedentas de sangue, e um fedor de
carne podre as acompanhava.
Brian, que tinha se virado para olhar para elas, subitamente
foi atingido por um golpe fortíssimo — a forma Crinos
do ancião o empurrara para a ponte.

Guardem bem,
ó filhos de Gaia.
Eu entôo a canção de
Morte-no-Fim
Cuja força era superada apenas
por sua sabedoria.
Ele foi meu mestre,
antes de minha primeira Mudança.
Eu presenciei o fim
do último.
“Vivemos os últimos dias”,
ele me disse.
Ele morreu,
defendendo Gaia,
defendendo os Garou.
Todos somos seus devedores,
porque ele morreu
defendendo a Litania
e os Registros.
Guardem bem
ó filhos de Gaia,
pois meu nome é
Morte-pela-Wyrm.
A mim foram passados
os Registros.
Sou o último dos guardiões.
Mas não se esqueçam jamais de Deathbear-rhya
- Morte-no-Fim era seu nome -,
o Guardião dos Registros Prateados,
que morreu ardendo em chamas prateadas.
LENDAS DO GAROU
TRADIÇÕES SAGRADAS PARTE 1



O lobo tinha vindo buscá-lo novamente. Brian sabia que
desta vez não conseguiria escapar. A fera já estava na casa,
e chegando ao quarto. Brian desceu correndo as escadas,
rasgando o pijama no vão da porta. Suas mãos estavam cobertas
de sangue, mas ele não entendia o motivo.
Atravessou o quintal, cruzou o portão, entrou na mata.
Continuou correndo, a respiração exalando baforadas no ar
noturno. O vento estava frio, e a floresta, traiçoeira e escura.
O impacto de seus pés no solo rachava raízes enregeladas;
espinhos laceravam suas roupas.
O lobo se aproximava. Sabia que desta vez alcançaria
Brian — todas as outras perseguições tinham sido apenas
em sonhos, mas esta era verdadeira. Brian olhou por cima
do ombro e compreendeu o que significava a espuma nos
dentes da fera. Estava faminta. Podia ler nos olhos dela a
ânsia por sua carne.
Em algum lugar à frente, um uivo rompeu o silêncio da
floresta. Uma meia lua apareceu por trás das nuvens, avultando-
se sobre o rapaz e derramando sua luz na neve. Patas
de lobo produziam sons surdos à medida que avançavam. O
que foi aquilo adiante? Uma silhueta branca cortando a
negritude? Escuridão. Olhos de lobo?
Brian virou-se quando o lobo saltou sobre ele. Patas pesadas
pousaram sobre seu peito, mas não lhe rasgaram a
pele. Caiu para trás, o ar abandonando-lhe os pulmões. O
lobo permaneceu sobre ele, as enormes mandíbulas abertas.
Desesperado, Brian virou o pescoço repetidamente para um
lado e para o outro, procurando por ajuda.
O lobo mordeu-lhe o pescoço uma vez, suavemente, e
em seguida outra, com mais força. Presas perfuraram sua
pele. Sangrando, Brian começou a choramingar.
O lobo largou o pescoço de Brian e fitou profundamente
seus olhos.
- Você veio... — ele disse, reconhecendo Brian pela primeira
vez.

Brian acordou. Um suor frio encharcava o cobertor antigo
que o cobria. Ainda estava com as calças do pijama,
mas a blusa ensangüentada tinha sumido. Um arrepio o atravessou,
e ele percebeu o frio que fazia. Estava deitado numa
espécie de prateleira. Baixando os olhos, viu um velho índio
agachado, abastecendo um fogão a lenha. As longas tranças
do homem eram de um branco acizentado, e embora ele
parecesse muito velho, movia-se com uma agilidade incomum.
Cepos de carvalho ardiam no fogão, crepitando à
medida que as chamas tocavam a seiva. Alguma coisa cheirava
bem. Moveu os olhos pela cabana, vendo um teto de
madeira, paredes de tronco, panelas amontoadas e umas
janelas de vidro de estilo afetado. Nas paredes de tronco viu
muitos arranhões, como se um animal as houvesse usado
para afiar suas presas.
- Fiz panquecas. Desça, pequenino — o velho disse.
Brian balançou a cabeça para despertar mais um pouco.
Empertigou-se na cama, apoiou os pés na escada maciça e
desceu. Coçando-se, encontrou uma pulga no pijama.
- Onde estamos? Eu... não lembro.
O velho pôs uma pilha de panquecas na mesa, e em
seguida uma panela de alguma coisa que cheirava a melaço
de bordo. Manteiga pura se derretia sobre a panqueca do
alto. Brian quase podia sentir seu gosto.
- Coma — o velho ordenou, mantendo o rosto inexpressivo
enquanto pegou o bule na fogueira e serviu-se de café.
Brian olhou em volta, examinando a cabana. Agora percebia
que os arranhões nas paredes tinham sido entalhados
— eram cutiladas artísticas, não os arranhões aleatórios de
um animal selvagem. Um único fio de fumaça coleava de
uma pequena tigela de barro, da qual pendia o crânio de
algum animalzinho. A fumaça emanava um odor forte de
sálvia. Brian sentou-se lentamente à mesa, ainda esfregando
os olhos. Nunca tinha estado naquela sala, mas ela era
estranhamente familiar.
Uma rajada de vento soprou através do fumeiro, e a cha-ma no fogão estalou por um segundo. A corrente atravessou a
sala, parecendo surpreender o velho. Inclinou a cabeça, como
se estivesse ouvindo alguma coisa ao longe e assentiu.
- Muito bem — o velho disse. — Veja se consegue esconder
o cheiro. Estou contando com você.
Outra rajada súbita moldou a fumaça do incenso em
espirais. E então o vento parou abruptamente.
O velho balançou a cabeça, sorrindo, e sentou-se à mesa.
Sua expressão tornou-se solene. Brian percebeu que confiava
no velho, e as panquecas pareciam gostosas demais para
serem recusadas. Pegando o garfo, avançou para a comida.
- A primeira vez é sempre difícil. Você não lembra o que
aconteceu ou onde está. Mas isto pode ser bom. Você passou
por um mau pedaço. Lembra o meu nome?
Brian negou com a cabeça e levou mais nacos de panquecas
amanteigadas à boca. Estava faminto. O velho não
pareceu incomodar-se com seus maus modos.
- Sou Morte-No-Fim. Este é o nome que recebi de meu
povo quando tinha a sua idade. Tem relação com a profecia
que fizeram a meu respeito quando nasci, de que eu estaria
vivo para ver o fim dos tempos. Minha família vive muito...
Mas o que importa, Brian, é que a partir de agora serei seu
guardião.

- Guardião? Pra quê? Tenho pais.
- Não estão aqui. E você não pode retornar até eles.
Você mudou, Brian.
- Como assim, mudei? E que história é essa de que não
posso voltar para meus pais?
- Você pertence ao povo-lobo, Brian. É um Garou. Um
metamorfo. Um lobisomem.
- Lobisomem? Você deve estar brincando!
O velho balançou a cabeça uma vez, enfaticamente.
- Não. Você é um Garou. Como eu.
Brian pousou o garfo.
- Você está louco, velho! — disse, levantando-se. —
Completamente doido. Onde estamos? Fui seqüestrado?
- Sente-se e termine seu desjejum, Brian.
Brian correu até a porta e a abriu. Defronte ao vão da
porta um enorme lobo negro descansava, parecendo à vontade
sobre a neve. Levantou-se quando Brian abriu a porta
e avançou para ele, rosnando.
- Brian, esta é Caçadora Implacável. Ela também gostaria
que você voltasse para a mesa e acabasse de comer.
Brian observou o lobo começar a se contorcer e mudar.
Seu corpo inchou, ficou maior. Um lobo gigante surgiu diante
dos olhos do rapaz. Lentamente adquiriu braços e pernas, tornando-
se um imenso homem-lobo. Por último, encolheu e
perdeu pêlos até se tornar uma mulher muito bonita.
- Pode me chamar de Kate — ela disse com um sorriso.
Usava casaco de couro preto, calças jeans e um estranho
colar de chifre.
Kate correu para segurar Brian quando ele quase desmaiou,
e o levou de volta à mesa. Morte-No-Fim colocou
uma garrafa metálica à sua frente.
- Beba — o velho mandou.
Brian tomou um gole generoso. O líquido que a garrafa
continha era azedo, mas só em bebê-lo Brian já sentiu-se
melhor.

- Tá, então sou um lobisomem. Ótimo. Bacana. Acho
que isso é o fim da minha vida social. Sabem como é, ter de
ficar trancado em noite de lua cheia...
Kate riu.
- Nada disso. A gente costuma mudar quando quer. Além
disso, no meu caso é Lua Nova. Você é do tipo de Meia
Lua, acho.
O velho assentiu com a cabeça.
- Tem razão, Caçadora. Brian é um Philodox, um guardião
das tradições sagradas. Esse é o motivo de ele estar aqui.
- Hein? O que isso significa? — Brian perguntou, levando
a garrafa à boca e bebendo outro gole do líquido azedo.
Franziu o nariz enquanto engolia, mas a bebida acalmava-o,
dando-lhe uma sensação de bem-estar como há muito não
sentia. O velho tomou-lhe a garrafa, observando o rosto do
garoto. Não demonstrava qualquer sinal de lembrança.
Morte-no-Fim balançou a cabeça e disse, com tristeza
na voz:
- Não lembra? Passamos muitas noites em seus sonhos,
como estamos aqui agora, neste mesmo lugar, contando-lhe
a Sabedoria do Povo.
Brian balançou levemente a cabeça.
- Não... não consigo lembrar nada...
- Quando você nasceu a lua mostrava-se pela metade
no céu. A sua espécie é a mais adequada para guardar as
antigas tradições, o conhecimento dos hábitos e dos ritos
do Povo. Também sou um Guardião das Tradições do Povo.
Conheço os Registros Prateados. Se for preciso, ensinarei
tudo novamente a você.
- Avô, talvez o garoto se recorde de tudo se nós lhe contarmos
um pouco — Kate opinou. — Deve estar nervoso. Eu
mesma lembro pouca coisa de minha Primeira Mudança.
- O que são esses... Registros Prateados? O único registro
que conheço é de água — Brian começava a ficar curioso.
- São registros do Povo... de todos os Garou, do mundo
inteiro. São representados pelos glifos esculpidos nestas paredes
— o Velho apontou as marcas que Brian já tinha notado.
— Este é um lugar espiritual, uma Cabana dos Registros
Prateados, e você está abençoado por se encontrar aqui.
- Bem, eu não entendo. Sabe, a meu ver estou... numa
cabana de madeira no meio da floresta. Como as que usávamos
ao caçar cervos. Olha, se o senhor me deixar sair para
telefonar para mamãe e papai, digo a eles que estou bem e
volto para ouvir as suas histórias. Que tal?
Kate sorriu para o velho, que não esboçou qualquer rea
ção. Uma nova brisa abanou as chamas do fogão, e em
seguida rodopiou em torno da cabeça de Morte-no-Fim. O
velho ouviu um pouco a brisa e depois respondeu-lhe:
- Entendo. Obrigado, Sussra. Está livre agora.
O velho voltou-se para Kate.
- Vá vigiar a divisa. Temos pouco tempo! Veja o que
pode fazer para retardá-los.
Sem dizer uma só palavra, Kate assentiu com a cabeça e
caminhou para a porta, batendo-a ao sair.
Voltando-se para o garoto, o velho falou num tom rude,
mas baixo:
- O seu pai nunca lhe ensinou a ouvir os mais velhos?
Ora, sou mais velho, e você vai me escutar! Senão solto você na neve e deixo que seja o desjejum da Wyrm!
Brian franziu a testa.
- Da.. o quê? Worm? Que é isso?
Uma frustração momentânea passou pelo rosto do velho,
seguida por um suspiro suave e um olhar calmo.
- Faz parte da história, mas não é toda ela. Deixe-me come
çar enquanto você come seu desjejum. Vê este glifo aqui?
É o primeiro Registro — o mais antigo. É aquele que reza...
Dos primeiros filhos de Gaia,
Eu, a Fênix, sou a um só tempo primeira e última.
Testemunhei em Gaia o nascimento de Luna.
Observei-a crescer.
Refestelei-me em seu poder.
E nas fendas da terra vi
surgir Vida.

- O que é isso? Parece o Gênese do Antigo Testamento.
Quem escreveu esse Registro?
O velho sorriu.
- Não é exatamente como o Gênese, Brian. É a história
de nosso povo. O Registro tem sido guardado por muitos
Garou durante os anos — as lendas contam qua a própria
Fênix mitológica gravou este glifo. O Registro parece ser
protegido e vigiado pela Fênix. Muitos o guardaram depois
da Fênix, cada qual acrescentando seus próprios glifos, suas
próprias idéias. Cada glifo é uma seção dos Registros. Esses
glifos contêm espíritos dentro deles, espíritos que ensinam
o significado dos glifos.
- Você mencionou Gaia. Ela não é a deusa grega da terra?
- Gaia é nossa palavra para a Mãe, a soma de toda a
criação. Tudo o que você vê aqui é Gaia. A Terra, o Sol, as
estrelas, os mundos, tanto aqui quanto na Umbra — todas
essas coisas pertencem a Gaia. Todas são de Gaia, até mesmo
a Weaver, a Wyld e a Wyrm.
- E quem são? Quem é essa... Wyrm?
- Este glifo fala delas, Brian.
As Grandes, as Celestinas, eram três:
Wyld, a Metamorfa em constante mudança
Weaver, a Criadora que jamais cessa de fiar
e Wyrm, a Mediadora sempre ocupada.
Então a Weaver enlouqueceu
e caçou a Wyld,
e encurralou Wyrm em seu casulo.
Mas Wyld escapou.
Entregue ao desequilíbrio, Wyrm corrompeu-se.
Tornou-se Corruptora.
Sentiu apetite por criação
e abriu suas mandíbulas
para alimentar-se de todos em Gaia.

- O que isso quer dizer? — que a Wyrm é a corrupção? É
um monstro ou alguma coisa do tipo?
- A Wyrm é, ao mesmo tempo, um monstro muito real e
um espírito poderoso que se manifesta de muitas formas. Os
vazamentos de lixo tóxico, as crianças que sofrem violência
ou abuso, os políticos que se envolvem em escândalos: todos
esses podem ser exemplos da presença e do poder da
Wyrm, embora o Mal humano costume igualar-se a todo
aquele criado por ela. A Wyrm é uma fera mágica que possui
o poder para apossar-se dos outros e, portanto, conceder-
lhes poder. Seu poder era grande nos tempos primevos,
e desde então os Garou travaram muitas batalhas com seus
soldados. A Wyrm está faminta e tenta devorar todos de
Gaia. — Morte-no-Fim olhou pela janela. — Está lá fora
agora. Esperando.
- O que aconteceu depois? Ainda estamos aqui. Por quê?
- O Registro prossegue. Gaia reage a todos os desafios,
ao seu próprio modo. Veja, aqui...

A Wyrm levantou-se sobre a Terra
Senti o vento gélido de sua sombra
E, como no Inverno, dormi.
Fui acordado rudemente por Luna
brilhando como seu irmão no céu
“Venha”, Luna disse, “Traga um presente.
Nasceram os novos filhos de Gaia.”
Fui até o local que Luna indicava com seu brilho
até as criações de sua irmã
e vi macacos que eram como lobos
e lobos que eram como macacos
e percebi que nada seria como antes novamente
E Luna disse “Estes são os Garou de Gaia. Eles devem
protegê-la da Wyrm, que deseja alimentar-se dela.”
Todos prestaram reverências a eles, pois eram os guerreiros
de nossa Mãe.
- Deixa ver se compreendi. Nós temos que sair e consertar
vazamentos tóxicos, limpar os rios e impedir o desmatamento
da Amazônia? Que nem o Capitão Planeta? Por causa
de alguma fera mitológica? Olha, sou a favor da conserva
ção do meio ambiente, mas...
- A Wyrm é muito real. Sua influência se faz evidente
em toda parte, e não apenas nos lugares óbvios. Descobrimos
que um Garou deve primeiro derrotar a Wyrm dentro
de si antes de ser capaz de combatê-la do lado de fora. Você
perceberá isso quando for submetido ao Ritual de Passagem.
- Aposto que também há um Registro Prateado para isso.
- Estes glifos falam sobre a Primeira Matilha, e o primeiro
Ritual de Passagem...

O Avô Lobo conduziu os filhotes de Garou
para a floresta e deixou-os lá
durante três luas, sozinhos —
eles discutiram e lutaram entre si
mas quando os lacaios de Wyrm atacaram
eles eram uma só mente, uma Matilha.
A Primeira Matilha,
e mataram as criaturas malignas da Wyrm
- Então o Ritual de Passagem é como um tarefa de escoteiro,
na qual deixam você sozinho na floresta?
- Não, Brian. O Ritual de Passagem é uma provação.
Um teste da natureza da alma. Durante esse teste você irá
descobrir o seu ser interior. Deixará de ser um filhote, um
jovem, para ser um adulto, reconhecido como um dos Garou.
Receberá seu nome Garou.
- Como Morte-no-Fim?
- Sim — disse o velho, sorrindo.
- E o que acontece? A Wyrm ataca você durante o Rito?
- Costuma envolver perigo, e o perigo nos fortalece.
Depois disso você é aceito como um novo Lobisomem. Aqui:
esta é a celebração da Primeira Matilha...
E então, Luna, brilhando por entre as árvores,
ordenou que lhes fossem ofertados seus Dons
Rituais:
Os filhotes, a Primeira Matilha,
receberam Dons das Cinco Direções
Do Leste veio a Tradição de Abrir Atalhos
Do Sul a Tradição da Fúria Ardente
Do Oeste a Tradição da Metamorfose
Do Norte a Tradição da Sabedoria
E do Cerne, Gaia concedeu aos Filhotes
pedaços Dela, para que eles os carregassem sempre em
seus íntimos —
a Tradição de Gaia.

- O que são todas essas Tradições? O que elas significam?
- Nós Garou possuímos muitas habilidades mágicas, Dons
concedidos pelos Cinco Ventos. O Leste nos deu a tradição
de passar deste mundo para o espiritual — a forma pela
qual cheguei até você em seus sonhos. O Sul deu-nos a
Fúria, que nos torna guerreiros terríveis e devastadores,
mesmo quando isso ameaça destruir-nos por dentro. Por
sorte, sendo um Philodox, você encontra grande equilíbrio
na Fúria.
- Do Oeste veio a Tradição da Mudança, a capacidade
de assumir muitas formas, incluindo a forma guerreira de
meio-lobo, a qual chamamos Crinos. Do Norte vieram nossas
Tradições da Sabedoria. As tradições da Sabedoria dos
Garou dividem-se em duas: nossos Dons e nossos rituais.
Os Dons são poderes mágicos; eles nos permitem desempenhar
feitos como obscurecer nossas formas e conhecer a Verdade quando a ouvimos. São segredos de Gaia compartilhados
entre aqueles que pensam igual. Os ritos são nossas
preces especiais para Gaia, embora sirvam também como
funções sociais. São nossa forma de nos relacionarmos com
o sagrado no íntimo de todos nós. Finalmente, do Cerne,
recebemos presentes da própria Gaia, aquilo que costuma
ser chamado Gnose.
- E essa história de Lua, de onde veio?
- Ah, os augúrios. Este glifo fala deles...

E Luna disse, “Saiba que estes também são meus filhos.”
Deu-lhes bela pelugem,
cada uma semelhante a uma das faces de Luna.
A Grande Luna, Luna do coração selvagem,
mãe da sabedoria,
mãe da arte,
mãe da loucura.
Aquela que possui muitas faces
- mas que mostra apenas uma por vez -
levou os Garou para a sua cabana de cinco paredes
e ensinou-lhes seus maiores talentos
os Dons interiores
E assim Cinco da Primeira Matilha,
Ahroun, Galliard, Philodox, Theurge e Ragabash
expuseram-se à luz da irmã de sua Mãe, e aprenderam
que seu poder e magia estava com eles.

- Como vê, para nós a Lua não é apenas um corpo celeste.
É o reflexo da beleza de Gaia. É a metamorfa suprema,
fonte de todo o mistério, mãe de todos os espíritos. Nós a
vemos como a Mãe de nossos Dons. Mas ela também é a
condutora da loucura, a criadora da Fúria.
- O augúrio não é apenas a fase em que Luna estava
quando você nasceu. Ele significa muito mais. Os Ragabash
são desbravadores das trilhas e das tradições; cruzam fronteiras
para que os outros conheçam seus próprios limites.
Os Theugers são conjuradores de espíritos e profetas. Os
Philodox são guardiões das Tradições Sagradas — mediadores
e juízes. Os Galliards são Dançarinos-da-Lua, bardos
e cantores, os selvagens cujos uivos belíssimos cortam o ar
noturno. Por fim, os Ahroun são guerreiros de bravura, for-
ça e determinação infindáveis. Você é um Philodox, um
Meia Lua. Isto é quem você é, e ainda mais importante, o
papel que você desempenha entre os Garou.
- Então os augúrios são como signos do zodíaco?
- Não exatamente, mas quase isso. A forma como você
escolhe servir o seu augúrio cabe a você, mas lembre-se: o
Povo sempre o julgará segundo o seu augúrio. A tradição
dos augúrios é antiga, remontando até a Primeira Matilha.
- Então todo Garou deve a sua linhagem a um indivíduo
da primeira matilha?
- De certa forma, sim. Embora muitas tribos tenham se
originado daquela primeira matilha.
- Tribos? Como as tribos dos índios americanos?
- Sim, mas apenas 13 delas vivem atualmente em Gaia.
Três das primeiras tribos estão perdidas para sempre. Aqui,
o Vigia-dos-Lobos, outro guardião dos Registros Sagrados,
fala sobre elas...
Muitos anos se passaram
e os primeiros filhotes acasalaram com
lobos e humanos.
Suas linhagens cresceram fortes
e eles formaram muitas tribos.
Essas eram as tribos,
conforme foi dito a mim, Vigia-dos-Lobos.
Cada uma corria pelas florestas densas
e possuía suas próprias Tradições:
Os Presas-de-Prata, muito fortes, governavam a todos nós
com o apoio dos Senhores das Sombras e dos
Roedores-de-Ossos.
Os Fúrias Negras distanciaram-se de seus irmãos;
comandados pela Mãe,
cresceram em Fúria e Sabedoria
e se dividiram.
Então veio a Guerra da Fúria,
e muitos indivíduos do Povo seguiram os Wyrm-ursos
até seus esconderijos distantes no norte,
e assim nasceram a Cria de Fenris,
os Fianna, e os Uivadores Brancos.

- O que foi a Guerra da Fúria? Uma grande batalha contra
a Wyrm?
Morte-No-Fim suspirou.
- Foi uma época durante a qual perseguimos os outros
metamorfos do mundo, aqueles que assumem as naturezas
de outros animais. Os principais eram os Gurahl, também
conhecidos como homens-ursos. Eles nos negavam conhecimento
e mantinham relações com a Wyrm. Ou pelo menos
é o que diz o Registro. O nosso povo agora conta isso de
forma diferente, que fomos nós que agimos errado. Os ursos
estavam apenas mantendo remédios poderosos fora do alcance
de crianças rebeldes. Um período triste em nossa Hist
ória, uma época em que tomamos as decisões erradas. Deixe-
me continuar...

Alguns membros do Povo decidiram
empreender uma longa jornada
seguindo os Puros,
seguindo seus corações,
e atravessaram as vastidões geladas,
encontrando muitos povos numa nova terra.
Esses Garou eram os Croatan,
os Wendigo e os Uktena.
Mais tarde, floresceram cidades nas planícies
e alguns membros do Povo deram as costas para a floresta.
E a deixaram para viver entre paredes.
A esses chamamos Andarilhos do Asfalto.
Entre todos os integrantes do Povo houve uns poucos
que escolheram olhar para o céu noturno,
e sempre o faziam sozinhos,
mesmo quando reunidos em matilhas,
e denominaram a si mesmos Portadores da luz
e foram viver bem alto, nas montanhas
Sou um dos Filhos de Gaia,
nascido como lobo para meu povo,
que deram fim ao Impergium,
que fizeram paz com os humanos